Na faixa Divine Intervention, um dos destaques do 25º álbum da carreira, Mick Jagger confessa um antigo temor. Em meio ao clima de incerteza mundial, ele admite ter consultado uma vidente em Hollywood para decifrar os rumos do destino. O relato, entoado sobre um arranjo que remete ao clássico boogie de Some Girls, traz o vocalista questionando o futuro até receber uma resposta nada reconfortante: a mulher simplesmente vomitou. Entre guitarras ágeis, a mensagem do refrão é direta — mesmo diante do caos, ele prefere ignorar o fim e seguir em frente.
O episódio resume bem o espírito de um homem que, décadas atrás, jurou que preferia morrer a cantar Satisfaction aos 45 anos. Hoje, prestes a completar 83, pouco depois da chegada de Foreign Tongues às lojas e plataformas no próximo dia 10 de julho, Jagger mantém a coerência de quem nunca tratou o tempo como um senhor absoluto. Enquanto colegas de geração se perdem em memórias e nostalgias bucólicas, o núcleo dos Rolling Stones prefere olhar para o agora.
Essa postura não é novidade. Nos anos 60, enquanto Paul McCartney elegia a melancolia de Yesterday para lidar com rupturas, Jagger preferia o confronto direto com o passado na ácida Yesterday’s Papers. A divergência artística entre os dois gigantes britânicos permanece viva. Se o material recente de McCartney se debruça sobre as lembranças dos garotos de Dungeon Lane, a banda de Dartford Station volta seus radares para as complexidades das relações externas.
Foreign Tongues não tenta ser um álbum de balanço de vida. A banda, que historicamente cantou tanto sobre a vastidão do tempo quanto sobre sua inevitabilidade, recusa o papel de monumento vivo. Em vez de reverenciar o próprio legado, o grupo prefere arriscar, mantendo a urgência que os definiu desde o início, mesmo que o mundo ao redor insista em acabar.
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