Por trás dos figurinos cintilantes e dos sucessos globais que definiram uma era, o Earth, Wind & Fire escondia fissuras profundas. O documentário dirigido pelo músico Questlove, lançado no Festival de Tribeca de 2026, mergulha na trajetória da banda para revelar uma faceta de seu fundador, Maurice White, bem menos reluzente do que a imagem pública sugeria.
Marilyn White, parceira de longa data de Maurice — falecido em 2016 —, descreve no filme uma rotina de infidelidades e traições cometidas durante as turnês. Em um relato incisivo, ela recorda ter descoberto um filho do músico fora de seu relacionamento principal e a reação arrogante de Maurice ao ser confrontado: ele se justificava com a fama. A sensação de desvalorização levou Marilyn a romper a união.
A complexidade emocional do líder também ecoa na voz de seu filho mais novo, Eden White. Criado em meio à distância do pai, ele compartilha a explicação que recebia de sua mãe, a figurinista Ellene Warren: Maurice carregava traumas de juventude que travavam sua capacidade de conexão, exceto quando ele estava imerso no processo criativo musical.
O documentário, que conta com depoimentos de nomes como Barack e Michelle Obama e Lionel Richie, não se limita ao drama pessoal. Integrantes antigos da banda detalham um ambiente de trabalho marcado pelo controle criativo rígido e frustrações financeiras. O guitarrista Johnny Graham relata o choque ao receber pagamentos que não condiziam com o sucesso do grupo, o que o levou a abandonar a formação permanentemente.
Outros músicos apontam que, enquanto o Earth, Wind & Fire gerava milhões, os rendimentos semanais de quem estava no palco eram irrisórios, muitas vezes inferiores aos dos funcionários da equipe técnica. Larry Dunn, antigo colaborador, acusa Maurice de monopolizar os créditos de publicação e produção para manter a imagem de único arquiteto da sonoridade do grupo.
A produção equilibra a grandiosidade estética dos shows — que chegavam a gastar somas milionárias apenas em tecidos — com os bastidores de um império construído sob tensões. O resultado é um retrato multifacetado: Maurice White foi, simultaneamente, um gênio visionário e um homem cujas decisões deixaram cicatrizes difíceis de apagar, oferecendo ao público uma visão crua dos custos da glória musical.
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